Do pastorinho da serra da Estrela aos milhares de sem-abrigo*

De repente olho para a televisão e ouço dizer que dois mil e quinhentos sem abrigo da capital vão ter consoada graças à boa vontade de inúmeros lisboetas. Sendo certo que nesta matéria os números são sempre muito duvidosos, não me parece que, em Lisboa, os sem-abrigo existam aos milhares. Rondarão os mil – dizem aqueles que nas instituições e na CML acompanham estas matérias. Um número provavelmente com tendência para crescer – acrescento eu – face às mudanças recentemente anunciadas para os 4585 doentes mentais internados em Portugal: o fecho de três dos seis hospitais psiquiátricos actualmente existentes, a concentração de outros e um clima de guerra aberta entre a tutela e as instituições particulares de solidariedade social (IPSS’s) que acompanham grande parte destes doentes não são o clima adequado para alterar positivamente o que quer que seja. ###
Ensina a experiência doutros países, nomeadamente dos EUA, que o reverso destas exaltações e enfrentamentos na saúde mental é o aumento do número de pessoas a viver na rua pois na realidade não existem as tais famílias a que idilicamente os doentes deveriam retornar e sobretudo é muito mais fácil fechar hospitais psiquiátricos do que criar os centros de rectaguarda que deveriam acompanhar estas pessoas.
É claro que nada disto vem a jeito quando se fala de pessoas sem-abrigo. As televisões dizem que dois mil e quinhentos sem-abrigo vão consoar em Lisboa. Mas até podiam dizer que eram cinco mil. Eles são apenas uma parábola. O sem-abrigo está para os dias de hoje tal como os pastorinhos da serra da Estrela estiveram para os meninos dos anos 60. Tínhamos de comer por causa do pastorinho, de agradecer os brinquedos – mesmo as mais hediondas peças de roupa – por causa do pastorinho e sobretudo a nossa traquinice transformava-se quase numa blasfémia quando confrontada com a postura adulta do pastorinho.
Nas primeiras vezes que subi à dita serra ainda tentei vislumbrar a sombra do pastorinho. Mas o mundo felizmente era grande e eles, com grande horror das élites, tinham trocado a natureza agreste da serra pela artificialidade das cidades. Na verdade pouco importava que víssemos ou não o pastorinho. Ele propriamente dito pouco interessava. O que interessava sim era que aquela criança humilde e trabalhadora era um repositório de virtudes que contrastavam grandemente com os desmandos futuros que a nossa irrequietude, provavelmente resultado duma infância por comparação privilegiada, já deixava adivinhar. De igual modo o sem-abrigo de hoje é também ele não uma pessoa mas sim uma alegoria.

Cada vez há menos paciência e tolerância para quem reivindica. Os sindicatos são vistos como um móvel fora de moda. Os grevistas quase têm de pedir desculpa por tomarem uma atitude anterior às maravilhas do choque tecnológico. Os organizadores de qualquer protesto passaram à qualidade de nódoa nos grandes momentos. Para todo e qualquer problema propõe-se fazer e divulgar listas negras.
Alheios a tudo isso, sem que se lhes vislumbre laivos de contestação ou perigosidade, os sem-abrigo riem para as câmaras de televisão, enquanto agradecem as canções e o bolo-rei. O sem-abrigo de hoje configura-se assim como a figura ideal para os bons sentimentos dum tempo em que o verbo reivindicar está arrumado na gaveta.

*PÚBLICO, 18 DE DEZEMBRO

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