As bruxas e o ‘Ambiente caviar’

«O pasteleiro Carlos Ramires, 47 anos, conta que antigamente a época da bola de Berlim abria em Maio, quando começava o bom tempo, mas com as alterações climáticas, o período forte passou a ser apenas entre o 15 de Julho e a primeira quinzena de Agosto.» – Esta afirmação retirada duma página online intitulada Observatório do Algarve dá bem conta das arreigadas certezas que actualmente fazem lei nesta matéria: quer para o pasteleiro quer para o jornalista as alterações climáticas pareceram-lhes um argumento consensual. E não só a eles. ###
Em boa verdade neste momento as alterações climáticas e por associação a defesa do ambiente servem para justificar tudo. Por exemplo a burocracia, o aumento de impostos ou a invenção de mais taxas. Na semana passada coube a vez aos sacos de plástico. Basta ter feito compras na Ikea para perceber que os sacos de plástico são facil e vantajosamente substituíveis por outros artefactos reutilizáveis. E é óbvio que o nosso desatinado consumo de sacos de plástico nos foi imposto pelo modo de funcionamento ‘moderno’ dos supermercados. Mas ainda é mais óbvio que a legislação sobre embalagens e higiene leva a que actualmente se multiplique a obrigatoriedade das saquetas e embalagens – por exemplo para o azeite nos restaurantes – que uma vez usadas têm exactamente o mesmo destino que os sacos de plástico. Ou seja o lixo.
Digamos que estamos perante um ‘Ambiente caviar’: a legislação para aprovar investimentos usa o agumento da defesa do ambiente para claramente favorecer os grandes investidores e aumentar o poder decisório de estruturas de colocação de comissários políticos; desiste-se de coisas tão simples quanto assegurar que as facturas da água apresentem indicadores de qualidade; mantém e aprova-se legislação sobre arrendamento que é um obstáculo à recuperação para habitação de edifícios antigos e logo promove a construção nas periferias… mas todos temos de abdicar de alguma coisa por causa do Ambiente. A cereja no cimo deste bolo muito espumoso são as alterações de clima. Mas apenas enquanto pretexto para se lastimar uma espécie de paraíso perdido com a chegada da industrialização. O assunto em si mesmo esse pouco intereressa. É mais uma questão de fé e de exaltação. Na verdade talvez sempre assim tenha sido no que respeita a esta matéria.
Em França, o historiador Emmanuel Garnier procura reconstituir o que foi o clima naquele país nos últimos três séculos. Na ausência de dados meteorológicos fiáveis – que só existem a partir do século XIX – Emmanuel Garnier recorre aos registos das várias actividades agrícolas, como as colheitas e as sementeiras. E também aos relatos dos párocos sobre as procissões organizadas para pedir chuva ou o fim das inundações. As conclusões apontam não só para que os períodos extremos de seca e grandes inundações sempre fizeram sentir como também para que se poderá falar dum fenómeno de aquecimento a partir do século XVIII. A outra das conclusões não é menos inquietante: na Europa central, entre 1570 e 1630, três a quatro mil mulheres terão sido queimadas após as comunidades onde viviam terem visto as suas colheitas destruídas pela chuva, pela seca ou pelas pragas. Os dados de Emmanuel Garnier parecem confirmar assim as teses dooutros historiadores que defendem que as fogueiras onde ardiam feiticeiras são uma espécie de mapa sobre as desordens do clima naqueles tempos.Hoje, felizmente, já não se queimam feiticeiras mas o clima de histeria e de ignorância esse não mudou. Só está um bocadinho mais cosmopolita.

*PÚBLICO, 10 de Dezembro

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