E aos costumes disse nada*

I) Ou talvez tenha dito o que de facto é costume. Refiro-me aos dois textos que Rui Tavares aqui publicou esta semana: depois de colocar à discussão as diferenças entre a esquerda e a direita, Rui Tavares optou por aparentemente deixar morrer o assunto e comentar um relatório dos serviços de informações norte-americanos sobre o Irão. Os EUA e o seu presidente são de facto o assunto do costume. ###
Note-se que escrevo “EUA e o seu presidente” e não Bush porque se algo de consensual existe na opinião publicada em Portugal nas últimas seis décadas é a forte certeza de que os presidentes norte-americanos são invariavelmente ignorantes, religiosamente fanáticos e eternamente desejosos de envolverem o seu país – e por arrastamente o mundo – num conflito bélico. Fosse nos anos sessenta com Kennedy a propósito dos mísseis em Cuba, nos anos 80 com Reagan e a ameaça dos mísseis soviéticos SS-20 ou no final dos anos 90, quando Clinton autorizou que se bombardeasse o Iraque, encontraríamos, tal como acontece hoje, invariavelmente instalada a convicção de que o mundo é um lugar mais inseguro por causa dos EUA. Ao ler-se o texto de Rui Tavares quase se é levado a pensar que o Irão é, neste momento, um problema internacional apenas porque Bush quer fazer uma guerra.
O outro lado desta visão do mundo como um lugar que o belicismo dos EUA desequilibra passa por uma percepção do outro como complemento directo das nossas acções. No texto e no olhar de Rui Tavares o Irão não pratica acções. A esta «misteriosa convicção (…) segundo a qual apenas nós mesmos [o Ocidente] somos portadores de actividade. O mundo é inerte e depende, por inteiro, da nossa vontade» chamou Paulo Tunhas «racismo altruísta». Esse mundo inerte, do qual o Irão faz parte, é naturalmente inocente. Simultaneamente os senhores da acção, no caso os EUA e, como seus apostos ou continuados, os países ocidentais, tornam-se os «depositários da culpabilidade». Simbolicamente é do país a quem muitos não perdoam sequer o pecado original da sua existência, Israel, que se espera, mesmo quando tal não se verbaliza, que venha a resposta na hora da verdade. Foi assim, no passado, com as pretensões nucleares do Iraque. Foi assim recentemente na Síria. Talvez venha a ser assim também no Irão. À terceira só cai quem quer – escreveu Rui Tavares. Esperemos que se houver uma nova resposta de Israel seja também verdade que à terceira só falha quem quer.

II) No National Intelligence Estimate existe uma certeza: o Irão não tem armas nucleares. É-nos traçado um cenário: não as obterá antes de 2015. E é-nos apontado no calendário o momento em que foi interrompido o programa de armas nucleares pelo regime de Teerão: o Outono de 2003.
Eu não confio tanto quanto Rui Tavares nos seviços de informações norte-americanos. Ou noutros quaisquer. Na verdade acho que tão indispensável quanto a existência dos serviços de informações é não esquecer que estes, sejam eles norte-americanos ou não, não só não dizem tudo o que sabem como frequentemente sabem bem menos do que o necessário.
Mas se é certo o que vem no relatório – e eu como milhões de pessoas em todo o mundo quero acreditar que sim – teremos de concluir que o Irão suspendeu o seu programa de armas nucleares alguns meses depois da invasão do Iraque. A ser verdade, como tudo o mais que consta deste relatório, este dado não pode ser ignorado.

*para ler texto de Rui Tavares http://ruitavares.weblog.com.pt/

*PÚBLICO, 6 de Dezembro

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