Angola, o BCP e um director de jornal em transe

Hoje, o Editorial de José Manuel Fernandes (sem link directo) está perto do indecifrável. Pelo menos para as pessoas comuns, i.e. aquelas que não se regem pelos informes sussurrados nos meandros. Primeiro, JMF ataca indignadamente o Governo angolano por um comportamento que este pratica há décadas.
Talvez seja oportuno lembrar o óbvio: Luanda faz e desfaz parceiros, empresas, promove e abdica de agentes económicos, como quer e lhe apetece. O único critério relevante é o exclusivo interesse da nomenclatura: nada disto é novidade para ninguém. A diplomacia portuguesa nunca se incomodou com isso, bem pelo contrário.
Depois, JMF fala de ataques aos “interesses portugueses” em Angola – já o disse antes, nunca percebi o que são nem quem os representa. Serão os interesses económicos das empresas participadas pelo Estado português? Ou apenas os ‘interesses’ nas que são detidas pelos cidadãos portugueses? Os titulados por outros mas capazes de afectarem a nossa economia? Concretizar-se-ão nas empresas que actuam em Portugal? E nas empresas nacionais que também trabalham no estrangeiro? Ou serão ‘portugueses’ somente os ‘interesses’ em que os portugueses têm interesse? Já agora, todos os portugueses ou só alguns, os mais interessantes?
JMF complica ainda mais a questão – aparentemente, os tais ‘interesses portugueses’ serão os de empresas bancárias portuguesas que estarão a ser prejudicados, na sua versão, muito graças à intervenção de Américo Amorim… Mas este empresário não é também português? Então os ‘interesses portugueses’ em Angola estarão a ser lesados em grande parte por culpa de um… português! E, muito encruado com o facto, JMF exige a intervenção firme da nossa diplomacia.
Por último, JMF entra decididamente na ficção conspirativa – segundo a sua teoria, a crise no BCP teve motivações externas a esse banco e a sua sinistra origem estará em… Angola. Um caso típico em que a soma de 2 + 2 é igual a vinte e dois.
Uma vez mais, insisto, não estou nem quero estar nos meandros da coisa. Mas para se perceber aquilo que se está a passar no BCP não é necessário fazer um esforço, sempre vão e naturalmente deslocado, de furar a greve dos argumentistas das séries e talk shows norte-americanos. O caso BCP entrou-nos pelas casas dentro. A roupa suja foi (mal) lavada diante de todos. Tinha os ingredientes de uma soap de 3ª categoria: o nepotismo, as cumplicidades, o esbanjamento de dinheiro alheio, a lógica do amiguismo da seita antes do mérito, as invejazinhas, o fiscalizador distraído, tudo isso e mais embrulhado numa dose bastante convincente de má gestão.
Explicar o descalabro do BCP com um levantamento-dos-‘turras’-apoiados-por-
agentes-duplos-que-embora-portugueses-lesam-os-verdadeiros-interesses-portugueses,
constitui, no mínimo, um excesso de imaginação assinalável. Que até seria cómico não fora a estranheza que causa.

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