Mediaticamente puros*

I) As declarações do Prémio Nobel James Watson acerca da inteligência dos negros tiveram o extraordinário mérito de quebrar o clima de beatificação laica que envolve os laureados com o dito prémio. Ser Nobel é o que de mais semelhante temos hoje com o desaparecido estatuto dos heróis da Antiguidade Clássica ou com os santos do catolicismo. ###
Hoje o Olimpo é só uma montanha igual a todas as outras montanhas e os deuses, talvez cansados de se cruzarem com montanhistas, espeleólogos e turistas, dormem agora fechados em compêndios sobre mitologia. Mais próximo de nós, o Vaticano é cada vez mais cauteloso na hora de falar de santidade – ou seja da relação privilegiada que alguns humanos tiveram com Deus – optando antes por fazer sobressair o papel determinante que a Igreja Católica teve na vida daqueles que a serviram: só no próximo dia 28 de Outubro, Bento XVI, declarará beatos 498 espanhóis executados entre 1934 e 1937 por serem católicos e estarem ligados a ordens religiosas.
Assim num mundo descrente de Deus, desiludido com as ideologias e que mexe na História com pinças, os agraciados com o Nobel tornaram-se nos heróis e santos possíveis. O Nobel da Paz é o expoente deste estatuto mediaticamente puro atribuído aos laureados. Não admira portanto que os textos muito críticos do jornalista Christopher Hitchens sobre Madre Teresa de Calcutá ou o Dalai Lama, ambos distinguidos com o Nobel da Paz, tenham sido recebidos não como bons ou maus textos mas sim como heresias. Noutros casos nem se passa para lá das hagiografias. Por exemplo, que textos que não sejam meros panegíricos vimos em Portugal sobre Ramos Horta ou dom Ximenes Belo?
Esta concepção algures entre o herói e o santo dos laureados tem levado a que se atirem para baixo do tapete detalhes incómodos de muitos nobéis. Por exemplo, as declarações da queniana Wangari Maathai, Nobel da Paz, que defende que o vírus da SIDA foi criado geneticamente com vista ao extermínio dos negros norte-americanos. Dir-se-á que as declarações dum Nobel da Paz não têm o peso científico dum Nobel da Medicina como é James Watson. Sendo isso verdade é apenas uma parte da verdade. Chame-se a isto racismo ou não – e na minha opinião é – também é verdade que se Wangari Maathai fosse europeia ou norte-americana e não queniana e se vez de negra fosse branca ou asiática as suas declarações teriam causado muito maior escândalo. A isto junta-se que Wangari Maathai, que por sinal também não condena a excisão do clitóris, fez essas declarações num continente, África, onde governos como o sul-africano se serviram deste tipo de teses para não aprovarem programas de tratamento contra a SIDA, condenado assim mihões de pessoas à morte.
Pegando na pergunta aqui feita por Rui Tavares «Serão os prémios Nobel menos inteligentes do que os empregados de café?» respondo que os Prémios Nobel têm certamente características que os distinguem da maior parte de nós mas isso não faz deles necessariamente melhores pessoas. Ou sequer um exemplo a seguir.

II) As declarações de James Watson remetem para um universo nosso velho conhecido – o do racismo. Mas a genética trouxe novas serpentes a este ovo tenebroso: não só hoje é visto como consensual que devem ser invariavelmente interrompidas as gravidezes cujos fetos apresentem deficiências como cada vez mais se anuncia uma humanidade geneticamente corrigida. Ou seja, ainda antes de nos termos desembaraçado do racismo, podemos ter de enfrentar um novo eugenismo. Que nos promete algo tão desumano quanto tentador: uma humanidade perfeita.

*PÚBLICO, 23 de Outubro

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