Era Lisboa e chovia*

“Para matar a fome à humanidade faltarão em 1985 2,6 milhões de toneladas de proteínas” – avisava em 1970 o então director da FAO, o holandês Addeke Boerma. Lidos agora estes avisos podem ser tão embaraçosos quanto o cachimbo com que Addeke Boerma aparecia nas imagens da época. E a época tinha a certeza que a sobrevivência da humanidade estava seriamente em risco não apenas por causa da fome mas também por causa da poluição e do excesso de população. A certeza era tal que cientistas como Paul Ralph Ehrlich preconizavam medidas que hoje classificamos como criminosas para que fosse evitada a explosão demográfica e garantiam que em 1974 a população norte-americana seria sujeita a racionamento de água potável e que em 1980 chegaria a vez do racionamento dos alimentos. Como é óbvio só não erra quem não pensa ou parafraseando Eça que dá o título a esta crónica, falha-se sempre a realidade. Estarão os actuais avisos de Al Gore sobre as alterações de clima ao nível destas pretéritas certezas? Não sei. Mas parece-me que mesmo sem alterações de clima existem razões suficientes para procurarmos energias alternativas aos combustíveis fósseis. Nesta linha de preocupação é, por exemplo, para mim incompreensível que em Portugal se tenha desistido da construção duma central de ondas no Douro e que o assunto não tenha sequer suscitado polémica.###
É indiscutível que a discussão sobre as alterações de clima está politizada como mas creio já ter chegado o momento da temática ambiental deixar de ser vista como um filme familiar, em que os bons levam os pandas para casa e os maus destroem a floresta. A discussão sobre as alterações de clima nada tem a ver com este universo Disney. Por exemplo, a aposta nos biocombustíveis vai ou não contribuir para degradar solos agrícolas e incentivar os OGM? É verdade ou não que o nuclear, opção sobre a qual Manuel Pinho interrogou Al Gore quando este veio a Portugal, se configura como a grande alternativa aos combustíveis fósseis? E em nome das alterações de clima vale a pena corrermos o risco de construirmos não apenas mais centrais nucleares mas também prolongarmos a vida útil das antigas centrais como provavelmente vai acontecer na Alemanha e em Espanha?
Aqui não há certezas. Nem finais garantidamente felizes. Existem discussões para as quais Al Gore deu um importante contributo. Porque falou do assunto. E porque enquanto governante facilitou o acesso à internet. Isto pode valer um prémio ou não?

*PÚBLICO, 17 DE OUTUBRO

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