os custos da popularidade

1. Enquanto o Dr. Ribeiro e Castro, no remanso tranquilo do lar, festejava mais um feliz aniversário do seu filho, o Dr. Paulo Portas dirigia-se gravemente aos portugueses para lhes anunciar aquilo que eles já há muito sabiam: que está disponível para regressar à liderança do CDS. A declaração foi breve e sem direito a perguntas. Via-se que tinha o tempo contado e que não queria demorar muito no Centro Cultural de Belém. Talvez tivesse mesmo um compromisso marcado, ao qual não quisesse chegar tarde. Quem sabe, o aniversário do filho do seu sucessor.

2. Na declaração que fez, Portas deu algumas provas de fraqueza, inevitáveis na condição em que está, da qual é, diga-se, inteiramente responsável: não admitiu perguntas, não esclareceu dúvidas, não justificou as falhas do passado, não descreveu as intenções do futuro. Pior do que isso, deu a entender que não pretende disputar a liderança em Congresso, onde o palco para as desconsiderações é enorme, mas nas «directas» que Ribeiro e Castro inventou. Num discurso onde deve ter pesado cada palavra que leu, disse uma coisa completamente absurda sobre a bondade do método pelo qual pretende regressar, do género «falem as urnas e extinguir-se-ão as facções».

3. A justificação é abstrusa e qualquer cidadão portador de cegueira política congénita consegue vê-lo de imediato. Portas sabe que os congressos dos partidos são perigosos, que oferecem enorme vantagem a quem domina a estrutura nacional, e, sobretudo, que o seu regresso não pode ser manchado por uma feira da ladra onde lhe faltem politicamente ao respeito. A ideia que preside ao seu retorno e que tentou vender, é a da unidade do partido, para fazer findar o divisionismo que a presidência de Castro não conseguiu impedir. Se, em vez disso, for recebido num Congresso que questione as razões do seu abandono e do seu regresso, poderá até mesmo perdê-lo. De todo o modo, nunca ganhará todo o partido e menos ainda o respeito do país.###
4. Sucede ainda que nesta caminhada táctica, porque é de tacticismo e não de uma verdadeira estratégia que se trata, o caminho de Portas é quase suicida e não se vê que possa ter um final feliz. Faltam-lhe, desde logo, argumentos fortes para justificar a saída e explicar o regresso. Faltam-lhe pessoas, já que tem menos do que quando saiu, altura em que, ao contrário de agora, ninguém no partido o questionava frontalmente. Não tem ideias novas, tendo-se refugiado nas banalidades que todos os políticos dizem, como a necessidade de conhecer o país e as mentalidades dos portugueses. Sobretudo, falta-lhe uma explicação plausível para o facto de reaparecer agora e não depois do seu involuntário sucessor ter ido com o partido a votos em eleições nacionais, ignorando-se, em bom rigor, se lhe poderá ou não ser útil.

5. Na verdade, Portas não quer perder o seu pecúlio político, acumulado durante anos de inteligente e pertinaz intervenção pública. Sabe que se não chegar a tempo de controlar a elaboração das listas de deputados nacionais e europeus, e dos poucos autarcas que o partido ainda elege em coligação com o PSD, o seu cada vez mais reduzido pessoal será varrido por quem agora lá está e que ele será relegado para um plano secundário. Portas não conseguiu fazer a «Fundação» que os americanos, segundo o, à época, bem informado «O Independente», lhe teriam prometido, onde poderia manter protagonismo, poder e influência, para ganhar lastro para um novo e mais ambicioso projecto político. Resta-lhe, assim, o CDS. Só isso e, reconheça-se, o maldito vício da política, pode justificar um regresso tão intempestivo e imponderado.

6. O que vai suceder nos próximos tempos parece evidente: a Direcção vigente não aceitará as directas e obrigará Portas a um Congresso extraordinário, se quiser ir a jogo. Se Portas recusar, refugiando-se em argumentos estatutários ou jurídicos, ficará mal na fotografia. Se lá for, o que poderá acontecer é imprevisível, a não ser o facto de que todos os seus protagonistas sairão politicamente diminuídos, provavelmente sem tempo de recuperação para os actos eleitorais que se avizinham. Há que ter em consideração que quem está agora no aparelho do partido conta com a recompensa do esforço feito nos últimos anos. Ou seja: lugares, lugares dos poucos que o partido tem para distribuir nas Autarquias, na Assembleia e no Parlamento Europeu. E não será certamente o carisma de Portas a convencê-los a abdicar disso.

7. Se o Dr. Castro for assaltado por ímpetos de malvadez, daqueles que podem resultar de um aniversário filial indigesto, poderá mesmo começar a abrir já o «partido à sociedade», como parece que o Dr. Portas quer agora fazer. Basta-lhe, para isso, retomar a ideia de voltar a fazer do CDS a «casa comum da direita portuguesa», e oferecer o seu regaço generoso ao Dr. Manuel Monteiro, permitindo-lhe o seu regresso, e o da sua gente, ao partido que ele próprio em tempos liderou, e que abandonou em momento irreflectido, provavelmente sob a nefasta influência de companhias impulsivas… A tempo do Congresso, obviamente. Seria uma ideia não só legítima, como politicamente surpreendente e defensável, por exemplo, para aproveitar a disponibilidade de dois antigos presidentes do partido, para promover um Congresso refundador que abarcasse toda a direita. A direita portuguesa sempre gostou de gestos de autoridade, de momentos grandiloquentes e do regresso ao passado.

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