Delírios graniticamente conservadores

Num panegírico encimado com um retrato de Paulo Portas, Henrique Raposo, cujos textos até costumo apreciar, escreveu esta coisa espantosa:
«A subversão, o espírito crítico, o sabor a liberdade só podem vir da direita. Aqui e agora, em 2007 e em Portugal, a direita liberal significa ousadia, golpe de asa, irreverência; uma irreverência que não existe em mais lado nenhum. Nós, liberais conservadores, somos os únicos desempoeirados num país ainda coberto pelo ácaros do século XX».
Está Raposo excessivamente equivocado. Tanto que até assusta.
A direita portuguesa não é, nem nunca foi, «subversiva» – para o seu tipo normativo comum, a palavra até possui algo de pejorativo; a direita portuguesa prefere a ordem, a imutabilidade, i.e. a inalterabilidade genérica das coisas, dos homens e dos valores.
A direita portuguesa não sabe o que é o «espírito crítico»; mas julga os parcos contornos que percebe do conceito como sinónimo de “traição” ou coisa pior.
A direita portuguesa desdenha o «sabor a liberdade»; hoje, bem como ontem – e temo bem que amanhã -, a direita conservadora nacional não gosta de nenhum dos paladares da liberdade; julga-a um luxo ou um perigoso resvalamento para o afrouxamento dos valores seguros e reconhecidos nas suas rotinas existenciais.
E depois, em Portugal, não há «direita liberal». Há, sim, meia-dúzia de bem intencionados (entre os quais, também, me incluo), carregadinhos de wishful thinking, mais ou menos inconsequentes e desejosos que essa miragem se possa concretizar. Mas estão, inapelavelmente, perdidos num imenso mar de conservadores imobilistas, proteccionistas e, para meu próprio espanto recente, de salazaristas mal camuflados – como se pode ver numa breve passagem pelas discussões de alguns blogues nacionais que gostam de se auto-intitular de “liberais”, por exemplo, muito infelizmente, no Blasfémias.

Mas o que me parece bastante mais indesculpável é Henrique Raposo depositar toda a sua confiança na fundação da «direita liberal» em alguém como Paulo Portas – aliás, insuportavelmente idolatrado em todo o texto.
O Paulo Portas de que agora, sebasticamente, se diz que vai “regressar”, não renasceu politicamente de geração espontânea – é o mesmo que foi ministro e vice-primeiro-ministro de um governo de que Barroso fazia gáudio em dizer “que não tinha nenhum liberal entre os seus membros“. É o mesmo Paulo Portas que verberou o liberalismo e os seus princípios até mais não, garantindo, a propósito, que “Aveiro não é Chicago e Portugal não é os Estados Unidos” (?!). É o mesmo Paulo Portas que desmentiu o liberalismo em todas as acções do seu governo durante três anos e meio.
O que é que este Paulo Portas tem de diferente daquele senhor com o mesmo nome que foi um péssimo ministro de dois maus governos até há 2 anos? Quem é que o acompanha agora que já não tenha estado ao seu lado em todas as lutas que travou nos últimos 10 anos? Digam-me lá onde é que Paulo Portas teve a sua Estrada de Damasco liberal, intelectual, competencial ou funcional, porque, sinceramente, não a consigo enxergar…
Este não é o emergir, muito menos o regresso, de nenhuma “direita liberal” mas sim o reaparecimento da velhíssima direita conservadora que nunca saiu daqui, nunca se reciclou nem conseguiu, sequer, perceber essa indesmentível precisão. E, falar de «… ousadia golpe de asa e irreverência…» a propósito de gente que já nasceu irremediavelmente velha, acomodada e que nem sonha em poder mudar, confesso, até me pareceria risível se não fosse trágico.

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