Carta para Londres III

Caro Bruno:

1. Do facto de eu defender que o Estado é a maior ameaça à liberdade não se pode concluir que eu prefiro o modelo Somali. Defendo que o poder do estado a níveis muito inferiores aos actuais. Um estado que domina 50% da economia é uma ameaça muito maior à liberdade que um estado que domina 20% da economia, com a vantagem de que neste último caso, as funções de segurança e justiça podem ser exercidas à mesma.

2. É um facto que o estado só se mantém porque detém o monopólio da força. Ninguém paga 50% dos seus rendimentos voluntariamente.

3. Indivíduos mais livres podem viver em países em que estado tem 1/3 da dimensão dos estados actuais.

4. Qualquer sistema económico que dependa essencialmente de trocas voluntárias entre agentes e do direito de propriedade é uma economia de mercado. E tais sistemas precedem o estado moderno.

5. Não percebe o que há de especialmente espontâneo na utilização de lingotes de metal para acertar contas num regime de troca directa?

Como é que os tais lingotes passam a ter aceitação geral parcial ou totalmente independente da sua utilidade como bem de consumo?

6. O planeamento por parte do estado implica a coordenação planificada de milhões de pessoas, cada uma das quais com objectivos diferentes e meios diferentes. O planeamento da acção de um pequeno grupo envolve a coordenação de algumas pessoas com o mesmo objectivo.

7. As empresas são grupos pequenos com objectivos definidos. Não se comparam com países. A coordenação de centenas de pessoas é possível com um sistema de direcção central, a coordenação de milhões não é.

8. Nos últimos meses/anos, até os traders mais socialistas têm comprado ouro em troca de euros e dólares. Porquê? Inflação. Os lingotes não inflacionam.

9. Eu defendo que o estado deve ter o monopólio da força, mas por isso mesmo deve ser absolutamente neutro em tudo o resto e deve abandonar progressivamente a educação, a saúde e a segurança social.

10. As falhas do estado são de um tipo diferente das falhas das instituíções privadas, quer nas suas causas, quer nas suas consequências. No sector público, as virtudes privadas causam vícios públicos, no sector privado, os vícios privados causam virtudes públicas. No sector público, se as coisas correrem mal, quem sai prejudicado é toda a comunidade. No sector privado, se as coisas correrem mal, quem paga é o empreendedor.

11. As empresas funcionam bem precisamente porque os empreendedores são uns sacanas de uns egoístas. É precisamente por esse motivo que tentam desesperadamente satisfazer os clientes. O que o José Barros diz sobre os contratos são detalhes que não fazem parte das prioridades dos clientes. Se num mercado o cliente tiver uma prioridade que não é satisfeita pela oferta e se essa prioridade puder ser satisfeita de forma económica, vai aparecer um sacana de um egoísta de um empreendedor a querer lucrar com isso.

12. As empresas têm imensas preocupações sociais. Preocupam-se com a satisfação do cliente.

13. As economias crescem porque há acumulação de capital. Até a economia da URSS crescia. O importante não é o crescimento, mas que valores é que esse crescimento satisfaz. Se os valores da elite dominante, se os valores da maioria, se os valores de cada um dos indivíduos.

14. As regiões em que o Estado entrou em colapso são as mais miseráveis à face da terra porque a miséria causa o colapso dos governos.

15. O Estado Grande existe porque, apesar de ser um inimigo da Liberdade, não é um inimigo da maioria.

16. Quando diz que “É uma evidência que não existiam cidadãos livres e iguais perante a lei até surgir uma lei que lhes deu esse estatuto!” está a partir do princípio de que o estado moderno precede a lei. E que é a lei que confere estatuto. Não foi ao contrário? Não foi a lei que precedeu o estado e não foi o estatudo que se transformou em lei pela força do uso?

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