Os novos "Sobas" da política (virtual)!

Vi o debate que a SIC Notícias promoveu entre “jornalistas” sobre a nossa recente “crise” de (falta de) governo.

Nada de novo, relativamente aquilo que já se foi dizendo (designadamente, na blogosfera); nada de particularmente interessante, no que respeita a eventuais pistas de análise e de antevisão do desenrolar dos acontecimentos…

A dado passo, dei comigo a pensar que havia qualquer coisa de estranho naquele debate. Um debate de “jornalistas”, para “jornalistas”, ainda por cima, eles próprios feitos estrelas mediáticas, opinando (em rigor, sentenciando) com um ar de presunçosa e superior bonomia, com uma pose de “nós é que sabemos, ah, ah!” e fazemos o favor de nos deixarmos ver em tão elevadas e iluminadas discussões. Um ar tipo “nós somos a opinião pública certificada”, “encartada”, nós somos aquilo que vocês, o público, os espectadores, os eleitores, o povo, enfim, miseráveis e inferiores mortais,pensam! Um estilo assumido com naturalidade do género “nós” é que dizemos aquilo que esses políticos de quem se fale e que tratamos com uma informalidade indiciadora de um profundo desprezo, “nós” ? dizia ? é que vamos aqui determinar o que realmente vai suceder!

Recordei-me de um outro debate que, há uns tempos atrás, tive oportunidade de assistir no Centro Cultural de Belém, sobre a questão europeia. Estiveram presentes muitas personalidades políticas, muitos especialistas e académicos estrangeiros, um representante do Parlamento Europeu, um diplomata da Polónia, um representante do governo da República Checa, etc, etc. Porém, também num dos painéis dominavam alguns e algumas “jornalistas” da nossa praça e, curiosamente, o tom foi o mesmo. “Eles” estavam ali para, com um supremo ar de donos do mundo e da verdade (provavelmente, em regime de oligopólio estabelecido entre “eles” próprios), decretarem (sem mais!) aquilo que iria acontecer relativamente ao futuro político da Europa. Claro está que o mesmo estilo doutoral e superior com que embrulharam as supremas banalidades que proferiram, tornava particularmente gritante a sensação que todos nós, os “outros”, os felizes e honrados assistentes de tão brilhantes oráculos, tínhamos: parecia que se estava a proclamar, como descoberta científica inigualável, o “carácter molhado da chuva”!

Por acaso estavam presentes alguns responsáveis directos e indirectos de alguns dos centros de decisão político-comunitária, alguns dos actores reais (se bem que, no caso, secundários) daquilo que se debatia: a Europa! Que importa, isso não interessava para nada e as suas opiniões (as opiniões de quem vive por dentro aquilo que esses “jornalistas” era suposto comentarem) eram irrelevantes! Quem determinava o que o governo da República Checa iria fazer, que posição iria adoptar, não era o seu representante, por acaso presente, mas sim esses novos “sobas” do tudo e do nada….

Há qualquer coisa de estranho quando sobre política e políticos proliferam programas supostamente informativos em que aqueles que falam, que opinam, que nos impõem o que é a realidade, no fundo quem se projecta e se dá a conhecer, quem se promove em “círculo fechado”, são precisamente aqueles que deveriam, apenas, ajudar-nos a ouvir e a perceber tais políticos e tal política…

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